BICHO FURÃO

Fatores climáticos (excesso de chuvas aliado ao calor), preço baixo da caixa de laranja (levando muitos citricultores a atrasar a colheita e, com isso, aumentar a quantidade de frutas maduras no pé), monocultura, controle químico inadequado e indiscriminada utilização de inseticidas (reduzindo a população de inimigos naturais das pragas). Todos esses fatores são apontados pelos especialistas como causas do aumento da infestação do bicho-furão, praga identificada no Brasil no início do século mas cujo comportamento é praticamente desconhecido da maioria dos citricultores, o que os leva, muitas vezes, a adotar um controle inadequado ou fora de época.

Bicho-furão é o nome popular da lagarta de um leptóptero conhecido como mariposa-das-laranjas (Gymnandrosoma aurantiana), que ataca frutos cítricos verdes e maduros, causando prejuízos expressivos à produção (de até 1,5 caixas/planta). Além de reduzir a produção, o bicho-furão dificulta a exportação de nossas frutas para diversos países, por causar danos à sua aparência e contaminar seu suco.

A fêmea adulta do inseto, uma mariposa de cerca de 18mm, coloca o ovo na laranja, de onde sai uma lagarta de cerca de 5mm, que fura a casca e entra no fruto. Nele, ela se desenvolve até atingir entre 15 e 18mm. Nos frutos verdes, a lagarta forma ao redor do orifício de penetração um anel amarelado de 2mm de diâmetro que, com o tempo, torna-se pardo-escuro. Por esse orifício, são eliminadas suas fezes. Esse sintoma facilita a diferenciação da infestação do bicho-furão em relação à da mosca-das-frutas, praga de ação semelhante mas que não deixa seus excrementos.

Tanto os frutos verdes como os maduros atacados pelo bicho-furão acabam caindo das plantas e apodrecendo no solo. As infestações costumam ser observadas a partir do mês de novembro, apresentando picos crescentes de janeiro à março, sendo as variedades mais atacadas das laranjas Pêra, Natal e Valência (tardias). O ataque varia conforme o clima e a região, sendo que a laranja Hamlin e as tangerinas Murcote e Poncã também são vítimas do bicho-furão, que costuma ser encontrado também em outras frutas, como Lichia, Fruta-do-conde, Manga e Goiaba. Foi comprovado que mesmo havendo frutos maduros em uma determinada variedade, a praga tende a migrar para outras que apresente os frutos no início da maturação, quando ainda estão verdes ou iniciando a coloração.

 

 

 

 

 

 

 


 

Bicho Furão dos Citros

Gymnandrosoma aurantianum

 

1) Histórico

No Estado de São Paulo o bicho furão é conhecido desde 1915, mas somente no final da década de 80 passou a status de praga secundária na citricultura.

A partir da década de 90 tornou-se praga importante, possivelmente em função do uso indiscriminado de agrotóxicos na cultura, alterando o equilíbrio biológico pela eliminação de parte dos inimigos naturais nativos.

Perdas de 0,5 a 1,5 caixas de laranja/plantas/ano devido ao ataque do bicho furão e levou-a a condição de praga com alto potencial de prejuízo a produção.

A área de abrangência do bicho furão inclui toda a região neotropical, com ocorrência já relatada no Brasil, Argentina, Costa Rica e Trindad-Tobago.

No Estado de São Paulo já constatou-se a presença da praga por toda a região citrícola.

A praga já foi observada também nas culturas de coco, goiaba, banana, cherimoia, lichia, macadâmia, fruta do conde, manga e espécies silvestres.

 

2) Descrição e Biologia

Trata-se de uma mariposa com cerca de 17 mm de envergadura de hábito crepuscular ou noturno, de coloração escura com asas posteriores mais claras, mimética com os ramos

A lagarta que se desenvolve no interior do fruto, apresenta coloração branco amarelada, com pequenos pontos escuros e cabeça de coloração marrom, com comprimento de 18 mm no seu máximo desenvolvimento, após 5 trocas de pele.

A infestação se inicia na forma de reboleira, pois a mariposa tem capacidade de vôo limitado. Normalmente começa pelas bordas do pomar, principalmente em áreas fronteiriças a matas, cerrados e pomares abandonados.

A postura é feita preferencialmente sobre a casca de frutas maduras, mas em situações de alta população da praga pode ser feita também sobre frutos verdes.

Os ovos são achatados, circulares, de cor amarelada e transparentes.

Quase sempre é colocado somente um ovo por fruto, possivelmente por haver algum marcador químico indicando que já houve uma postura, evitando nova sobre o mesmo fruto.

Cada fêmea coloca de 150 a 200 ovos durante o ciclo. Essa postura se mostra mais intensa no 3º ou 4º dia após seu início.

 


Quadro I – Período de oviposição da fêmea do Bicho Furão durante o dia

 

 

 

Quadro II – Fecundidade, Mortalidade de ovos e Longevidade do macho e fêmea em


                     diferentes umidades relativa (Temp 27º C + 2º C; Fotofase 14 h) 

 

 

 

 

Médias seguidas da mesma letra, na vertical, não diferem estatisticamente entre si, pelo teste do Tukey (P<0,05)

Fonte: Garcia (1998)

 

Do ovo, depois de 5 dias em média, nasce uma lagartinha que se desloca sobre a casca do fruto por um período de 2 a 7 horas, antes de penetrar no fruto. Não se sabe se durante esse período a lagarta se alimenta.

A penetração ocorre a uma distância de aproximadamente 4,5 cm do ponto da eclosão com 50 % das lagartas já atingindo a região da polpa do fruto após 48 h da eclosão.

 


Quadro III – Tempo entre a eclosão e a penetração da lagarta no fruto

 

 

 

 

Após 2 a 3 dias da entrada da lagarta já começam a surgir sinais de excrementos nas casca do fruto, ao redor do orifício de entrada. Este é um dos principais sinais de identificação da presença da praga.

A duração da fase larval é função da fase de maturação do fruto e de seu pH, sendo pouco influenciada pela temperatura ambiente.

 


Quadro IV – Desenvolvimento do Bicho Furão em Função do Estágio de Maturação da Fruta. 

 

 

 

 

 

Em seguida se inicia o estágio pupal que geralmente ocorre no solo, sob detritos, podendo ter lugar também em frutos e ramos, mas com menor frequência.

 


Quadro V – Local de desenvolvimento do Estágio Pupal

 

 

 

 

A umidade do solo no período pupal tem influência na duração da fase e na viabilidade da pupa.

 

Quadro VI – Efeito da umidade do solo sobre as pupas.


  

 

Embora os dados referentes a condição de solo com umidade intermediária não conste do quadro, sabe-se que esta é a condição mais interessante para a pupa.

Solos muito secos também representam uma condição desfavorável, tanto quanto o solo saturado.

Na seqüência do ciclo, das pupas surgem os insetos adultos que logo iniciam o processo de acasalamento.

A fêmea apresenta um período de pré oposição de 2 a 3 dias.

A longevidade da fêmea é de até 25 dias e a do macho de até 19 dias.

O ciclo do bicho furão varia de 27 a 61 dias dependendo de fatores como:

- estágio de maturação do fruto

- temperatura ambiente

- umidade relativa

- umidade do solo

- variedade do citros

 


Quadro VII – Duração dos Estágios de ovo, larval, pupal e ciclo total (ovo-adulto) em diferentes temperaturas (UR % 60 + 10%, fotofase 14h) 

 

 

 

 

 

 

Médias seguidas da mesma letra, na vertical, não diferem estatisticamente entre si, pelo teste de Tuckey (P<0,05)

Fonte: Garcia (1998)

 

O número de gerações do bicho furão dos citros varia conforme a região do Estado de São Paulo, acontecendo em maior número em regiões mais quentes.

Trabalho em desenvolvimento no Fundecitrus, tem mostrado uma maior captura de insetos nas regiões mais quentes, embora a praga tenha se mostrado importante em todos os locais.

 

Quadro VIII – Nº de gerações do Bicho Furão em diferentes regiões de São Paulo

 


  

 

Quadro IX – Dados Biológicos do Bicho Furão: 25º C e UR 50%  (Fonte: Garcia 1998)


  

 

 

 

3) Comportamento

3.1) Acasalamento:

O vôo nupcial ocorre em 100% das vezes na parte superior da planta (1/3 superior), ao entardecer, sendo que o período com maior freqüência acontece entre as 18:00h e 23:00h. A duração da cópula é de 1 a 4 horas.

 

3.2) Oviposição:

A oviposição também ocorre ao entardecer sendo que em 78,5% das vezes ocorre no período entre19:00h e 23:00h, 16,6% no período entre 07:00h e 19:00h e 4,9% entre 23:00h e 07:00h

Os períodos de acasalamento e de oviposição são aqueles em que os adultos ficam mais expostos e portanto, os mais adequados para o controle fitossanitário.

 

3.3) Localização do Inseto Adulto na planta

Os adultos durante o dia permanecem imóveis no pomar, movimentando-se apenas em dois períodos, ao entardecer e ao amanhecer. A movimentação é mais intensa entre 05:00 h e 06:00h e entre 18:00h e 20:00h.

Situações de alta temperatura e baixa umidade relativa, que ocorrem em alguns períodos do ano favorecem ainda mais a imobilidade do adulto.

Durante o dia as mariposas localizam-se na parte interna da planta, sendo que 75% da população encontra-se na parte média e baixa da copa. Somente nos períodos de movimentação e que se dirigem para a parte superior da copa.

Com relação aos órgão da planta a preferência do adulto quanto a localização segue a ordem:

folha > fruto> ramo

Folha                           92,6%

Fruto                             4,7%

Ramo                            2,7%

 

Considerando-se o pomar como um todo, 86,5% das mariposas encontram-se nas plantas cítricas, 11,0% no solo e 2,0 % nas ervas daninhas. Disto se conclui que o mato do meio do pomar não se constitui um bom abrigo para a praga.

 

3.4) Variedades de laranjas

De forma geral, todas as variedades de laranjas são bem susceptíveis ao ataque de furão, sendo a Pera, a Natal e a Hamlin, as mais atacadas.

 

Duração do ciclo com a variedade

Pera                43,5 dias

Valência         40,5 dias

Natal              38,9 dias

Deve-se lembrar que as tangerinas também são atacadas pelo bicho furão.

 

3.5) Períodos de Incidência

De modo geral, uma maior população do bicho-furão ocorre na primavera, seguida pelas populações do verão e do inverno, como menor incidência no outono. Essa maior incidência coincide com períodos com maior quantidade de frutos maduros, principalmente aqueles correspondentes ao final de colheita da Pera e a colheita do Natal e Valência. No período de primavera e verão ocorre o aumento de temperatura e da umidade relativa, que também favorece a preservação da praga.

Conforme dados do Fundecitrus, de outubro a janeiro os pomares apresentam os maiores populações de bicho furão.

 

4) Danos

Normalmente o ataque do bicho furão inicia-se nas proximidades de matas, cerrados e pomares abandonados.

No fruto atacado desenvolve-se uma lesão circular, com textura rígida e seca, com presença de uma secreção dura, composta de excrementos e restos alimentares sobre o orifício de entrada da lagarta no fruto.

Dentro do fruto observa-se a formação de uma galeria que corresponde ao caminhamento da lagarta e onde ocorrem infecções secundárias provocadas pela entrada de microorganismos e insetos.

A praga tem preferência por atacar frutos localizados entre 0,5 m e 2,00 m de altura.

A fruta atacada tem queda precoce ou perda da possibilidade de comercialização caso não caia, promovendo graves prejuízos a produção.

Em condições de baixa umidade a quantidade de danos é bem menor, pois as fêmeas colocam menor número de ovos a apresentam menor longevidade.

 

5) Monitoramento e controle

5.1) Monitoramento

O controle racional do bicho furão deve começar com o correto monitoramento da praga. Trabalhos desenvolvidos na ESALQ mostraram que a melhor maneira de faze-lo é através de forma adulta do inseto.

Pelos processos anteriores de amostragem, a forma era a visual, observando-se o porcentual de frutas atacadas no pomar.

Mas alguns inconvenientes são observados neste métodos:

a) no momento da decisão de controle uma parte da produção já se encontra perdida.

b) as lagartas localizadas no interior das frutas atacadas não são atingidas pelos produtos químicos, permitindo uma nova infestação na área.

c) o bicho furão, mesmo com populações inicialmente baixas, pode provocar explosões populacionais dependendo de condições climáticas e de desenvolvimento das frutas.

 

Mais um aspecto a ser considerado é o da possível falta de sincronismo entre as fases de desenvolvimento do inseto com as aplicações de defensivos, ou seja baseado na presença de frutos com danos pode-se aplicar produtos para o controle de adultos em um momento em que as mariposas não estão presentes. Desta forma, gasta-se produto e tempo com a pulverização sem a presença da forma controlável da praga, atingindo-se os inimigos naturais.

No processo de amostragem visual, as aplicações geralmente são feitas em área total, na tentativa de se reduzir a população como um todo.

A partir do Ferocitrus Furão a estratégia passou a ser a de uso de um feromônio sexual para o monitoramento.

Feromônio sexual vem a ser uma substância química produzida por um sexo para atrair seu parceiro para o acasalamento, a longas distâncias.

Com está técnica de monitoramento, sabe-se qual o melhor momento de controle, em qual parte do pomar deve ser feito, realizando-o antes de se observarem danos a produção.

Como o monitoramento é feito sobre a fase adulta do inseto, antes que a fêmea coloque seus ovos, reduz-se drásticamente as perdas de frutos.

Observações feitas em áreas onde o Ferocitrus Furão vem sendo usado regularmente, demonstraram que as perdas pela praga foram em média de 0,6 a 1 fruto/planta.

Na estratégia de uso do Ferocitrus Furão, devem ser levadas em conta os seguintes requisitos básicos:

a) instalar a armadilha no ponteiro da planta, independente de sua idade e altura.

b) a pastilha com o feromônio e a armadilha devem ser trocadas obrigatoriamente a cada 30 dias.

c) saber reconhecer o adulto do bicho furão capturado na armadilha.

d) instalar uma armadilha a cada 10 há ou a uma distância de 350 m, uma da outra

e) realizar avaliações semanais, contando-se e retirando-se os adultos capturados.

f) observar os seguintes níveis de captura para iniciar o controle:

            - quando a armadilha capturar até 5 machos/semana: não controlar.

- quando capturar de 6 a 8 machos/semana atinge-se o nível de atenção: não controlar; observar a mesma armadilha por mais uma semana e se repetir-se a captura de 6 ou mais adultos, pulverizar a área.

- quando a armadilha capturar 9 ou mais machos na semana, controlar.

 

Alguns aspectos devem ser considerados no monitoramento da praga com o Ferocitrus Furão, principalmente no início do seu uso. Quando da instalação dos primeiras armadilhas, tem-se a praga em vários estágios de desenvolvimento, havendo desde lagartas protegidas dentro das frutas até um escalonamento na liberação de adultos pelas pupas.

Desta forma a frequência de pulverização pode ser inicialmente alta, diminuindo com o passar do tempo.

Nota-se também que quanto maior o número de machos capturados, maior o número de pulverização necessárias para o controle do inseto, pois tem-se várias gerações acumuladas. Existe uma relação estreita entra a captura de adultos pela armadilha com os danos observados no pomar.

Para maior eficiência do monitoramento, recomenda-se que seja feita durante o ano todo. Com relação a pastilha, a cobertura plástica que a envolve, em hipótese alguma deve ser retirada, pois é ela que permite a liberação controlada de odor do feromônio. Se este envólucro for retirado, em curto espaço de tempo não mais haverá a atração de machos adultos.

É interessante que as armadilhas não sejam colocadas sempre nas mesmas plantas, durante o ano. Pássaros podem acostumar-se a retirar as mariposas capturadas pelas armadilhas.

 

5.2) Controle

O controle do bicho furão requer o conhecimento da sua biologia, como também o conhecimento e acompanhamento das condições do pomar.

Sabe-se que em situação de baixo preço da fruta, quando colheitas são normalmente mal feitas e/ou atrasadas, a atenção tecnológica com o pomar se reduz, produtos são aplicados sem muito critério causando desequilíbrios, acabam por dificultar o controle da praga.

A grande extensão de área de citros, com grande diversidade edafoclimática, também faz com que sempre tenhamos em algum lugar, pomares com infestação do inseto com áreas para seu abrigo durante o ano todo.

Para um bom resultado no controle do bicho-furão, deve-se ter em conta que a melhor forma é a de se associar os controles biológico, cultural e químico.

a) Controle biológico:

Crisopídeos, formigas e aranhas podem atacar as lagartas após a eclosão, antes de entrarem no fruto, assim como lagartas em trânsito para o solo, antes de empuparem.

As lagartas no interior de fruto podem ser controladas pelo parasitóide Hymenochaonia delicata, que através de um longo ovipositor coloca os ovos na lagarta, atingindo 50% a 60% de parasitismo.

Os ovos do bicho furão são atacados pelo parasitóide Trichograma pretiosum, com resultados que chegam a 100% de parasitismo e redução de 40% de danos.

Aplicações indiscriminados e não seletivas, podem por em risco o equilíbrio biológico de pomar.

b) Controle cultural:

- colheita rápida;

- catação dos frutos atacados na planta;

- recolhimento dos frutos do solo;

- destruição dos frutos recolhidos das plantas e do solo.

c) Controle químico

 

 

 

 

Produtos registrados para o controle do Bicho Furão